A importância das estórias verdadeiramente inventadas

Por Leonardo Valente / Adaptação Web Rachel de Brito

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Cultivo memória vívida, rancorosa e dolorosa da ditadura chilena do general Augusto Pinochet, sinto arrepios cruzarem o corpo de alto a baixo e tornarem minha pele áspera e arredia ao pensar na dor, no medo, na angústia e na desconfiança dos perseguidos; fico sem ar ao lembrar-me dos mortos, ao sentir o cheiro da terra seca e esquecida das valas sem lápide, sem homenagem e sem dignidade, e ao imaginar o quanto essas vítimas poderiam ter feito por suas famílias e por aquele país delgado se não tivessem suas vidas violentamente ceifadas por um dos regimes mais duros e cruéis da América Latina.

Guardo em mim sons, toques, socos, piadas macabras e um cheiro de pólvora oriundo de cano de revólver quente que não são oriundos de meus sentidos, pois não os vivi em concretude, apenas em pensamentos. Não estive no Chile durante a ditadura, tampouco tive amigos presos, mortos ou torturados por lá, nem conhecido, ou sequer conhecido de conhecidos. Não tenho lugar de fala em primeira pessoa, mas meus sentimentos não devem soar como ironia ou deboche, pois são verdadeiros, minhas dores doem e meus medos me assustam.

Devo muitas dessas lembranças e traumas que nunca tive mas que guardo comigo a Formas de voltar para casa, romance inesquecível de Alejandro Zambra; devo essas memórias à literatura, especialmente a de ficção, pois mesmo com todas a limitações do ato de escrever e de se contar uma história, como Zambra aponta em suas obras, a literatura ficcional tem mais poder sobre o imaginário político do que os melhores tratados acadêmicos e relatos jornalísticos, tem o poder de fazer a imaginação extravasar a própria obra.

É a literatura ficcional política que permite às gerações do futuro desenvolverem seus afetos em relação ao passado, e nossa noção do mundo e nossos valores precisam desses afetos. Li muito sobre a ditadura chilena, livros de história e de política que me deram a dimensão social, conjuntural e estrutural daquele período, mas Zambra, sem informações exaustivamente detalhadas, sem gráficos e análises objetivas, apenas com estórias verdadeiramente inventadas, com suas personagens e a tessitura de sua narrativa deu-me a lágrima contida no canto de olho, a voz embargada e a vontade de gritar: nunca mais!

Romances moldaram e ainda moldam minhas orientações sobre política e sobre a vida. O Brasil da crise aguda, da tristeza e do desânimo, o Brasil da polarização ainda não apareceu de forma substancial nas prateleiras de romances, dos contos e das poesias nacionais nas livrarias.

É cedo, nossa crise não acabou, e o que se já vivenciou dela ainda deve estar um tanto na mente de escritores e dos poetas, e outro bocado em originais em fase de gestação, quem sabe em clássicos a serem eternizados. Não tenho dúvidas, contudo, de que a forma como futuras gerações vão interpretar esta fase dependerá muito mais de o que por esses artistas será contado, que pelas análises acadêmicas ou pelas matérias de jornal.

Dispensável afirmar o papel crucial tanto da imprensa quanto dos trabalhos dos estudiosos das universidades na construção da história futura sobre as mazelas de hoje. Estes, no entanto, se perderão na necessária frieza do método se não chegarem acompanhados das obras cuja natureza as permitem extravasar os limites da realidade para se tornarem ainda mais fiéis a ela.

O lado que vencer a batalha da criação dos sons, dos cheiros, dos amores e dos ódios que nunca existiram nestes nossos tempos sombrios será também o vencedor na construção narrativa do que hoje costumou-se chamar de verdade.

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