Caminhos do desejo

Por Marcos Visnadi / Adaptação Web Rachel de Brito

Depois de muito tempo imaginando e desejando de longe, a menina finalmente pôs as mãos naquilo. A promessa se materializava grossa e pesada nas suas mãos, e a menina segurava com ternura e firmeza aquilo que queria soltar apenas para pegar de novo. O livro, buscado por tanto tempo, estava à sua disposição inclusive para não ser lido – guardado no colo, intocado, enquanto a rede balançava dando um frio na barriga.

A cena está no conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector. O livro em questão é As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, e é a própria escritora que sobrepõe o tesão adulto à inocência infantil na relação da personagem com o volume: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”.

Você pode objetar que o livro de Lobato não é exatamente um bom exemplo de literatura erótica, mas não é bem isso que o conto apresenta. Na caracterização desse amante improvável, a sexualidade da menina dá-se em várias camadas – todas misteriosas, muitas indizíveis (como costuma ser nos textos de Clarice). Duas, no entanto, podem ser destacadas do texto e escolhidas como caminhos para que tentemos chegar a uma compreensão do que é o erótico. Comecemos com a materialidade do livro.

AMOR TÁCTIL

Com frequência nos esquecemos, mas neste caso é importante lembrar: a leitura é uma experiência física, ela sempre ocorre através de uma provocação dos sentidos. Quando você segura um livro na mão, uma infinidade de texturas sutis entrega-se para ser explorada. Caetano Veloso definiu bem essa propriedade em uma canção: “Os livros são objetos transcendentes/ Mas podemos amá-los do amor táctil/ Que votamos aos maços de cigarro”.

Objeto como qualquer outro, o livro possui, além de peso e atrito, cheiros, formas, cores e outras coisas que só o corpo entende. Aliás, não só o livro, mas qualquer que seja o modo como o texto se materializa, ele é sempre concreto, mesmo que suas palavras apontem para o mais abstrato dos reinos. Assim, é no cheiro do papel, na luz das letras brilhantes desenhadas na tela de um computador ou celular, no realce da letra em braille ou nos sons de um audiobook ou de uma leitura pública que o texto viaja – até arrepiar a nossa pele e entrar no nosso corpo.

A menina de “Felicidade clandestina” usufrui de um amor físico com o livro que, embora bastante estimulado pelas edições infantis, pode ser encontrado na mais sem graça das publicações adultas. O texto sempre tem um corpo para entrar em contato com o corpo de quem lê – e, como diz Manuel Bandeira no poema “Arte de amar”, “os corpos se entendem”.

COM A CABEÇA NAQUILO

O texto, porém, não é só corpo e frequentemente ele estimula um órgão mais discreto, e nem por isso menos sensível: a imaginação. Pode parecer paradoxal, mas é com esse procedimento abstrato que a literatura chega àquela que às vezes é taxada como a mais concreta das facetas humanas: o sexo.

A professora da Universidade de São Paulo Eliane Robert Moraes define a literatura erótica como aquela que desloca “seus objetos para um lugar simbólico que se identifica, invariavelmente, com o baixo-ventre ou, se preferirmos os termos de Bakhtin, com o baixo corporal”. Para a professora, “antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo”.

Isso quer dizer que, como tema, o sexo não garante um texto erótico (o que qualquer livro de anatomia pode ajudar a comprovar). É quando se torna um ponto de vista para todas as coisas, inclusive para si mesmo, que o sexo tem o poder de erotizar o texto.

Seguindo a leitura por esse caminho, “Felicidade clandestina” é um conto erótico se o lermos a partir das suas últimas frases: quando o desejo da menina é descrito pela escritora com sugestões de orgasmo e o livro é enfim explicitado como amante da mulher, podemos voltar à história infantil do conto pensando já em outras coisas – mais precisamente, naquilo. É um bom exemplo do tipo de erotismo literário praticado por Clarice Lispector, escritora que muitas vezes tem uma compreensão erótica da vida, mas raramente a expressa de modo explícito.

Na crônica “A descoberta do mundo”, a autora conta como descobriu “o que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão refere-se à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos”. Desse jeito enviesado, cheio de pudores, a autora vai desdobrando uma narrativa que gira em torno de uma única coisa, obsessivamente. Sem ser nomeado, o sexo é o mundo a ser descoberto. E, bem ao estilo de Clarice, quando a narradora afirma que enfim descobriu tudo sobre os “fatos da vida”, a impossibilidade de descobri-los é reafirmada: “mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza”.

LUGARES BEM GUARDADOS

Nem sempre, no entanto, o erotismo literário é assim inocente. Um poema de MIRIAM ALVES, por exemplo, aborda “o mistério” da vida com imagens um pouco menos misteriosas. Sem usar nenhuma palavra explícita, a poeta nos leva ao baixo-ventre por meio do mergulho em imagens ambíguas, que vão dar em lugares onde as emoções, sim, é que são explícitas.

Enigma
Tento decifrar-me
mergulho-me
calo
acalento calores
dilacerados
Mergulho em você
avolumo prazeres solitários
broto emoções explícitas
em lugares bem guardados

Um tanto mais chulo, este poema de WALDO MOTTA ainda assim não chega a arregaçar o explícito:

Quando eu era pequenino
do tamanho de um botão
já burungava o
Agora sou marmanjão
mas como então igualzinho
vivo só no buraquinho
Ai, meu Deus, que troço bão!

O vocabulário e a grafia alinham o poema a uma tradição erótica embasada no cômico e no popular. O poema é tão evidente no seu objeto de desejo que o poeta pode até subtrair o substantivo final do terceiro verso, deixando a imaginação completá-lo – com palavras, talvez, mais baixas do que as que existem na nossa língua. Já o poeta Glauco Mattoso possui uma vasta produção de sonetos que se insere em uma tradição fescenina mais erudita e desbocada, na qual se incluem poemas atribuídos a Pietro Aretino, Bocage e Gregório de Matos. O “Soneto 423 – Perversivo” parece pôr todas as palavras a descoberto:

Para ler esta matéria na íntegra, adquira já a edição nº 78 da revista Conhecimento Prático: Literatura

PORTAL ESPAÇO DO SABER LITERATURA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *