Como promover autonomia a um aluno surdo?

Por Leandro Calbente* | Adaptação web Renê Saba

O SignWriting foi desenvolvido em 1974 por Valerie Sutton

Um dos grandes desafios da educação contemporânea é garantir um ensino de qualidade para todas as pessoas que frequentam as instituições escolares. Isso significa não apenas capacitar os indivíduos para ter bons resultados escolares, mas principalmente fornecer elementos para que todos possam exercitar o pensamento autônomo e crítico, garantindo o desenvolvimento das competências leitoras e escritoras de modo que possam tornar-se aptos para a leitura das mais diversas expressões da linguagem humana, como textos escritos, imagens, linguagens artísticas, matemáticas ou científicas, não se limitando a uma concepção da escrita pensada como um código que representa a fala e que enxerga o letramento simplesmente como o domínio do uso da escrita no interior do ambiente escolar.

Por essa razão, o ensino de qualidade passa necessariamente pelo desenvolvimento de propostas didático-metodológicas que propiciam práticas de letramento dos alunos nos mais diferentes contextos sociais. E, nesse caso, o ensino de literatura tem grande papel, já que por meio dele é possível explorar várias linguagens e novas experiências de pensamento de modo a ampliar os horizontes de reflexão e interação social dos alunos.

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Diante disso, uma temática que merece especial atenção é a do ensino de literatura e práticas de letramento dos alunos surdos que frequentam as mais diversas instituições de ensino do País. Isso porque os dados existentes sobre os resultados escolares dos alunos surdos indicam para a urgente necessidade de repensar as práticas de ensino que vêm sendo utilizadas no processo de escolarização desses indivíduos.

Em 2017, o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi “DESAFIOS PARA A FORMAÇÃO EDUCACIONAL DE SURDOS NO BRASIL”. A escolha do tema foi bastante oportuna e propiciou uma reflexão pública em torno da importância de garantir uma formação educacional adequada à comunidade surda brasileira. E o próprio resultado do exame evidenciou a urgência dessa questão. A nota média de todos os candidatos que participaram do Enem foi de 541,9 pontos, já a nota dos alunos surdos que participaram do exame foi de 367,4 pontos quando optaram pela realização da video-prova em Libras (Língua Brasileira de Sinais) e 369,1 quando optaram pela presença de intérpretes em sala de aula. Isso significa que a nota média dos alunos surdos foi cerca de 30% inferior à nota média dos alunos ouvintes.

Esses dados evidenciam as dificuldades que existem no presente para o sistema escolar brasileiro garantir um aprendizado de qualidade e capaz de assegurar aos alunos surdos a autonomia necessária para atingir bons resultados em provas como a do Enem. E uma das principais razões disso passa exatamente pelo esforço de aplicar metodologias que garantam o desenvolvimento das competências leitoras e escritoras desses alunos. Segundo especialistas surdos e ouvintes, a única forma de melhorar isso é por meio da educação bilíngue nas escolas que atendem alunos surdos, conceito que será analisado em seguida.

A educação bilíngue

Atualmente, existem múltiplos entendimentos do que significa uma educação bilíngue para pessoas surdas. Pedagogos, professores, ativistas e outros especialistas surdos e ouvintes entendem de modo muito variado essa perspectiva de ensino, portanto, é importante ressaltar que compreendo educação bilíngue como uma perspectiva que entende ser central para o desenvolvimento da criança surda a exposição à língua de sinais o mais cedo possível e, depois, especialmente durante o processo de escolarização, a uma segunda língua, que no caso brasileiro seria o português, em sua variação escrita.

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Nessa perspectiva, a pessoa surda não é pensada como deficiente, mas como uma usuária de uma língua distinta da maioria, no caso brasileiro, o português. Por essa razão, a perspectiva bilíngue percebe que o espaço escolar deve ser organizado de modo a garantir que os alunos surdos sejam escolarizados com a língua que se sintam mais à vontade e que tenham mais familiaridade e facilidade de se expressar e de articular seus pensamentos e sentimentos. Com isso, é possível criar um ambiente escolar no qual os alunos surdos não sejam prejudicados pela falta de domínio
do português padrão e que possa ser favorável ao desenvolvimento de múltiplas práticas de letramento.

Um considerável elemento para a organização de uma proposta bilíngue de educação para alunos surdos é levar sempre em consideração o papel desempenhado pela visualidade no processo de aprendizagem dos alunos surdos, já que a língua de sinais é visual e seus usuários são marcados por uma forte experiência visual do mundo e das relações consigo mesmo e com outros indivíduos. É por essa razão que um grupo de trabalho em torno da política linguística de educação bilíngue formado pelo MEC, em 2014, defendeu que a educação bilíngue em Libras e português em sua modalidade escrita é a “escolarização que respeita a condição da pessoa surda e sua experiência visual como constituidora de cultura singular sem, contudo, desconsiderar a necessária aprendizagem escolar do português”.

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Por essa razão, em uma perspectiva bilíngue, as metodologias voltadas para o desenvolvimento das competências leitoras e escritoras bem como para o ensino de literatura em sala de aula precisam levar sempre em conta as especificidades das línguas de sinais e construir estratégias que pensem a linguagem em sua dimensão multimidiática, sem jamais restringir o texto a sua dimensão puramente verbal. A combinação de estratégias visuais diversas com o uso da língua de sinais como fundamento para o aprendizado da escrita e leitura em português é decisiva para o sucesso de uma perspectiva bilíngue de ensino de alunos surdos.

É importante lembrar que o desenvolvimento tecnológico proporcionou notáveis ferramentas para o desenvolvimento de práticas de letramento que não se limitam apenas à produção do texto escrito. Exemplo disso é o uso frequente de plataformas digitais, como o Youtube, na comunicação e na produção de saberes pelas pessoas surdas em todo o mundo. Esse tipo de estratégia, que combina variadas mídias e linguagens, é muito relevante na constituição de propostas pedagógicas que permitam aos alunos surdos aproximarem-se e apropriarem-se do português escrito de forma mais eficiente e autônoma.

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