Entre o país do futuro e o complexo de vira-latas

Por Dylan Frontana* | Adaptação web Tayla Carolina

As imagens do Brasil, entre os brasileiros, são múltiplas. No entanto, é possível observar a manifestação de dois extremos, que podem ser resumidos da seguinte forma: de um lado, aqueles que veem o Brasil como o país do futuro, um território abençoado por Deus, premiado com uma diversidade natural e cultural inigualável, livre dos piores desastres naturais e dotado de uma gente alegre, criativa e pacífica – enfim, o gigante adormecido que um dia, com alguns ajustes, se levantará para ocupar a posição de destaque que lhe cabe no cenário internacional; de outro, os que acreditam que o Brasil é uma nação fadada ao fracasso, inviável, por prevalecer aqui o chamado jeitinho brasileiro, a subversão incorrigível das leis, a corrupção endêmica, a desigualdade crônica, o desrespeito à diversidade e à universalidade dos direitos.

Essas duas visões, embora hoje possam se fundamentar a partir de dados reais e contemporâneos, não são novas. Existiam, com algumas variações, antes mesmo de nos tornarmos um país politicamente independente. Já no século XVI, época da chegada dos portugueses, os documentos escritos e a iconografia que testemunham os primeiros contatos dos europeus com o nosso território revelam essa dualidade curiosa: se algumas descrições aproximam o Brasil do paraíso, outras, desoladoras, alardeiam que aqui havia uma espécie de materialização do inferno.

No século XIX, a literatura contribuiu significativamente para reforçar esses dois pontos de vista. É a partir dessa constatação que propomos, neste artigo, uma aula temática que dê conta de comparar dois romances importantes do referido século: Iracema, de José de Alencar, e O cortiço, de Aluísio Azevedo.

Além de duas obras indispensáveis em qualquer curso de literatura no ensino médio, ambas aparecem na lista de livros exigidos de diversos exames vestibulares do País.

A preocupação com a identidade nacional

Ainda que muitos relativizem o real significado da emancipação política do Brasil em 1822, para as artes – e para a literatura, mais especificamente – este ano representa um marco importante. A partir daí, uma das preocupações centrais do Estado e das elites intelectuais brasileiras passou a ser a necessidade de dar uma resposta satisfatória para questões como “O que é o Brasil?” ou “Quem são os brasileiros?”.

Em suma, era necessário forjar uma identidade nacional plausível que possibilitasse criar, mais do que um país, uma ideia de nação na qual nos reconhecêssemos e que nos distinguisse das demais nações do planeta.

Nesse momento, a nossa dependência cultural, à revelia da emancipação política, fez com que artistas e escritores importassem modelos vindos da Europa para delinear aquilo que consideravam as marcas mais substanciais da nossa identidade.

A primeira solução, nesse sentido, foi dada pelos românticos, que optaram, de modo ufanista, pela valorização de elementos genuinamente nacionais, consagrando a natureza e o índio como símbolos mais expressivos da nossa cor local.

O romancista José de Alencar desempenhou um papel de destaque nesse contexto, dedicando quase que a integridade de sua obra a um projeto literário praticamente indissociável de um projeto mais amplo de nação.

No final do século, com a chegada do romance naturalista ao Brasil, a necessidade de autodefinição nacional não desapareceu, mas ganhou tonalidades bem distintas. No lugar do ufanismo romântico surgiu um olhar profundamente crítico sobre a nossa realidade social; no lugar do índio e da natureza idealizados, teorias científicas que procuravam explicar as consequências devastadoras da nossa relação com o meio físico e da composição étnica do povo brasileiro.

Iracema (1865) e O cortiço (1890) são, talvez, as expressões mais bem acabadas de uma e de outra vertentes literárias. O confronto entre as duas obras, com o intuito de verificar modos contrastantes de representar o Brasil e sua gente, passa necessariamente pela observação de dois aspectos centrais na arquitetura narrativa desses romances: a natureza brasileira e o significado da miscigenação.

 

*Dylan Frontana é formado em Letras pela USP e professor de Língua Portuguesa e Literatura no ensino médio e em cursos pré-vestibulares.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 77

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *