Introdução às narrativas a partir de Tim Burton

Por Fabio Fernandes Garcez / Adaptação Web Rachel de Brito

É comum quando trabalhamos algum texto literário para alunos do ensino fundamental, ou mesmo literatura nos três anos do ensino médio, ouvirmos de algum estudante: mas isso realmente aconteceu, professor? Por mais vezes que ouvimos isso, responder à questão nunca é fácil. Ao dizer para o aluno que não, é possível que ele perca o interesse pelo livro ou pela narrativa. Por outro lado, também não podemos afirmar que tudo ali retratado seja a realidade.

O que podemos afirmar é: temos encantamento e paixão por histórias. A professora e pesquisadora Cândida Vilares Gancho em Como analisar narrativas diz: “Narrar é uma manifestação que acompanha o homem desde sua origem. As gravações em pedra nos tempos da caverna, por exemplo, são narrações. Os mitos — histórias das origens (de um povo, de objetos, de lugares) —, transmitidos pelos povos através das gerações, são narrativas; a Bíblia — livro que condensa, história, filosofia e dogmas do povo cristão – compreende muitas narrativas: da origem do homem e da mulher, dos milagres de Jesus etc. Modernamente, poderíamos citar um sem-número de narrativas: novela de TV, filme de cinema, peça de teatro, notícia de jornal, gibi, desenho animado… Muitas são as possibilidades de narrar, oralmente ou por escrito, em prosa ou em verso, usando imagens ou não.”

Costumo, logo no início do ano letivo, trabalhar o filme PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS, uma produção estadunidense de 2003, baseado no livro Peixe Grande: Uma fábula do amor entre pai e filho, de DANIEL WALLACE, publicado em 1998. A adaptação para o cinema foi dirigida por TIM BURTON e roteirizada por John August e traz um elenco recheado de estrelas: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange e Marion Cotillard no elenco principal, e Helena Bonham Carter, Matthew McGrovy e Danny DeVito no elenco de apoio.

ERA UMA VEZ…

O filme traz, em síntese, duas linhas narrativas. A primeira é a relação de Edward Bloom (Albert Finney) – um caixeiro-viajante do sul dos Estados Unidos que tem um grande dom para contar histórias e que sofre com a fase terminal de um câncer – com seu filho William (Billy Crudup) – um jornalista, à espera do primeiro filho, que mora em outra cidade. Ao tentar se reconciliar com o pai após uma discussão ocorrida há anos, também busca pelos fatos acontecidos e, como consequência, tenta descobrir quem seu pai realmente é.

Logo no início do filme Will diz: “A verdade é que nunca me vi refletido em meu pai e duvido que ele se veja refletido em mim. Éramos como estranhos que se conheciam muito bem”. Esse conflito é gerado porque o filho de Edward Bloom torna-se um jornalista que prefere escrever sobre fatos, ao contrário de seu pai, um notável CONTADOR DE HISTÓRIAS de temática maravilhosa e mística. Em uma discussão, Edward diz ao filho: “Somos contadores de histórias nós dois. Eu falo as minhas, você escreve as suas. É a mesma coisa”. Esses dois aspectos antagônicos desses personagens vão colocá-los em campos opostos; em outra discussão com seu pai, Will diz: “É porque a maioria das histórias não aconteceu”. Diz, ainda, que ele nunca lhe contou a verdade. Edward Bloom lhe responde: “É isso que eu sou, um contador de histórias”. Assim, Will faz o papel de nosso aluno que questiona o que lê e vai em busca da “verdade” das histórias.

Edward Bloom, por sua vez, representa o autor, o criador de histórias. Em uma passagem significativa do filme, Edward conta à nora: “Não sei se você sabe, Josefine, mas papagaios africanos, nascidos no Congo, falam somente o francês. Tem sorte se conseguir arrancar quatro palavras em outra língua. Se estiver andando por aquelas selvas teria ouvido o falatório num francês muito erudito. Os papagaios falam de tudo: política, cinema, moda, tudo! Menos religião”. Em outra passagem, Edward diz à nora que Will se apega apenas aos fatos, e suas histórias não têm nenhum sabor.

Dessa forma, Edward diferencia os textos jornalísticos dos textos literários, que, mesmo sendo baseados em fatos, podem ser embelezados, engrandecidos pela fantasia. Como disse o crítico literário Antonio Candido: “a literatura é uma transfiguração da realidade”, e é justamente a experiência estética que traz o encantamento das histórias, sejam elas lidas ou ouvidas, porque, mais que contar o que aconteceu, na esfera literária tem-se a preocupação do como contar.

É no campo formal e estético que se encontra aspecto de beleza das histórias, e é por isso que Edward Bloom diz: “A maioria das pessoas conta a história direta. É menos complicado, mas perde-se o interesse”.

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