Jaqueta branca, de Herman Melville

A vida em alto-mar foi o motivo central da obra do autor americano. Neste texto, o tradutor de Jaqueta Branca, inédito no Brasil, comenta seu processo de trabalho e reflete sobre o ofício

Por Rogério Bettoni* | Adaptação web Tayla Carolina

Quando recebi o convite para traduzir Jaqueta Branca ou O mundo em um navio de guerra, a sensação de estar diante de um mar aberto retornou com a mesma intensidade de quando vi o mar pela primeira vez: a mareação. Junto dela, a responsabilidade de um clássico nas mãos.

Porque todo clássico que se pretende traduzir, principalmente do século XIX para trás, já impõe um primeiro desafio ao tradutor, que, a modo de Borges – ou melhor, de seu personagem Pierre Menard –, precisa reconstruir um texto escrito há mais de 150 anos.

E, no caso específico de Jaqueta Branca, um texto que não se enquadra muito bem nos rótulos prontos que usamos para engavetar nossas leituras: não é autobiografia, não é romance, não é relato de viagem, e no entanto é tudo isso – um texto que confunde a fronteira que os críticos gostam de delinear quando separam ficção de não ficção.

Acredito que uma boa tradução não pode ser presa ipsis litteris ao texto original, tampouco solta demais a ponto de perder o vínculo com sua origem.

Grosso modo, o tradutor precisa ser capaz de encontrar um equilíbrio entre esses dois polos e, para isso, tem de se munir do máximo de elementos contextuais da época em que o texto foi produzido, bem como do ambiente do autor e de seus leitores, para tentar “pensar como eles” – autor e leitor – e escrever um texto novo que reflita, o máximo quanto possível, o tom e o estilo do autor original.

Manter o tom e o estilo do autor, no entanto, não significa escrever como Melville escreveria em 1850, tarefa algo impossível, visto que o ambiente cognitivo e contextual do tradutor está inserido em outra época. A tradução deixa de ser tarefa apenas vocabular e assume a condição de leitura estrutural e ressignificação cultural, um equilíbrio entre a tradução que domestica (pensa apenas no contexto do leitor da tradução) e a que estrangeiriza (pensa apenas em inserir o leitor no texto original).

É claro que essa relação é muito mais dinâmica do que parece, e a classificação só existe para fins didáticos e elucidativos, ou para lembrar o tradutor de seu próprio papel. O que soa estranho aos leitores que hoje leem Melville em inglês deve causar estranheza nos leitores atuais que o leem em português.

O que flui no texto em inglês deve fluir no texto em português. Esse é o equilíbrio que, a meu ver, o tradutor precisa ter como objetivo. Estabelecendo essa meta como o sentido das regras do jogo da tradução, o tradutor corre menos risco de explicitar o que não deve ser explicitado – e no caso de Melville, há muitas sutilezas e ambiguidades características de seu estilo.

 

*Rogério Bettoni é filósofo, educador e tradutor. Formou-se em Filosofia pela UFSJ e especializou-se em tradução pela UFMG. Trabalha como tradutor profissional nas áreas de Humanas, Artes e Literatura e pesquisa as interseções entre hermenêutica e teoria da tradução. Pela tradução de Jaqueta Branca, ganhou o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional (Prêmio Paulo Rónai).

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 77