Mayombe, de Pepetela

Por Denis Silva* | Adaptação web Tayla Carolina

Em 2003, a Lei nº 9.394 – lei basilar que regulamenta as diretrizes e bases da educação pública e privada em nosso País – recebeu a inclusão do artigo 26-A que tornava obrigatório o ensino da HISTÓRIA E CULTURA AFROBRASILEIRA.

Já em 2008, com a inclusão da História e Cultura Indígena, a lei foi modificada novamente. Desde então, percebe-se um esforço tímido, e muitas vezes isolado, de alguns professores e coordenadores,  isso para evitar que a força da lei não seja o mais importante sobre o tema.

Uma vez que a falta de formação de muitos professores, o desconhecimento do assunto e o fato de não saber trabalhar com a temática empurraram-no para uma aplicação protocolar, muitas vezes, relacionada apenas à semana do dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra).

Logo, a falta de prestígio da cultura africana, EM ESPECIAL DA LITERATURA, no ensino básico brasileiro pode ser confirmada ao vermos que somente em 2016 a Fuvest, maior vestibular do País, colocou em sua lista de livros obrigatórios uma obra de um autor africano, Mayombe, de Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos).

O autor angolano nascido em 1941, que já publicou várias obras e recebeu muitos prêmios internacionais, entre eles o Prêmio Camões pelo conjunto da obra, foi um combatente durante o período da guerra pela libertação de seu país. O intelectual foi um dos guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

E foi nesse período que escreveu Mayombe. Sobre essa obra, antes de tudo, é importante dizer que o calor do momento no qual foi escrita se faz evidente. Contudo, apesar de sua publicação ter ocorrido somente em 1980, e sua
criação entre 1970 e 1971, há temas nessa obra que são caros aos nossos dias.

 

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Alguns inclusive estão no vértice do furacão maniqueísta que se tornou o nosso País. Já do ponto de vista social, assuntos como o empoderamento feminino e a questão do mestiço em um país de maioria negra, pertencentes a diversas tribos, mas ao mesmo tempo controlado politicamente por homens brancos, são tratados com a naturalidade e profundidade que merecem; não se vê, portanto, subterfúgios panfletários das causas apresentadas na obra.

O nome da obra, Mayombe, vem do espaço no qual ocorre a maior parte do enredo, uma floresta densa cuja descrição demonstra sua grandeza e a transforma em uma prosopopeia, “O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados”.

A floresta – que aos poucos vai influenciando o comportamento dos guerrilheiros – é um ambiente desafiador nos aspectos físicos e, a um só tempo, nos psicológicos. O grupo de guerrilheiros que está na mata precisa não apenas vencer os tugas (inimigos portugueses), mas também resolver suas diferenças internas na questão tribal, códigos de conduta, traições, além de suas inquietações pessoais.

De início, na dedicatória da obra, vemos a intenção do autor em valorizar a ação da guerrilha, sem transformar os combatentes em heróis. Percebe-se que, ao dizer que contará a história de Ogum, “o Prometeu africano”, quer mostrar a saga de homens que desafiaram o status quo, assim como a ação simbólica dos deuses e titãs gregos que não passavam de arquétipos para ações e comportamentos humanos.

Pois, se Prometeu entregou o fogo aos homens desafiando a prepotência do Olimpo, Ogum seria a divindade a lutar ao lado dos homens contra as injustiças que os acometem. Há ainda que se analisar o aspecto formal, pois a obra inova no foco narrativo, já que, em sua maior parte, vê-se um narrador observador e onisciente que nos conduz pelos cinco capítulos da obra; existem, contudo, momentos em que os personagens tornam-se narradores.

 

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É essa peculiaridade que traz um sopro de inovação à obra, pois são esses narradores múltiplos que apresentam informações de foro íntimo, cujo conteúdo pode ser material de análise profunda. Essa polifonia é responsável por trazer uma espécie de conversa com o leitor e também apresentar o viés do personagem que se mostra diferente da narração em terceira pessoa.

Quanto ao conteúdo da obra, pode-se dizer que há múltiplas possibilidades de análise, e o professor pode escolher até mesmo entre um trabalho de sua disciplina de forma isolada ou aproveitar o livro para um profundo trabalho
multidisciplinar que envolva várias áreas do conhecimento.

Cada personagem é um mundo dentro de Mayombe; e, na impossibilidade de falarmos sobre todos, o recorte da obra será feito sobre Teoria e Ondina. Não se trata de serem ou não os principais personagens do livro, pois o enredo pouco permite esta análise de importância ou mesmo uma hierarquia dos personagens.

Começando pelo personagem Teoria, que é mestiço e professor, temos um representante da figura do intelectual dentro da guerrilha, poder-se-ia até mesmo dizer que seria uma espécie de personagem autobiográfico de Pepetela. Isso, porém, é irrelevante diante da caracterização e humanização de Teoria.

Suas inquietações tornam-se o ponto alto no início da obra. Ele é o primeiro personagem a ganhar voz e se tornar narrador no livro. É ele quem vai nos mostrar não apenas a intolerância e o preconceito, mas também uma guerrilha rachada pela questão tribal.

 

*Denis Silva é graduado em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André e pós-graduando do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC. É professor de Literatura e Produção de Textos em cursinhos pré-vestibulares e na rede particular em São Paulo.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 76

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