O estrangeiro que nos habita

Em O estrangeiro, seu livro mais conhecido, Albert Camus explora as contradições e angústias do homem, em um romance que pode ser lido como uma autobiografia de todos.

Por Matheus Arcaro / Adaptação Web Rachel de Brito

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Fernando Pessoa, pela pena de Ricardo Reis, escreveu certa vez que “seremos sempre estrangeiros, onde quer que moremos”. Ao tecer o romance O ESTRANGEIRO, Albert Camus (1913- 1960) estava, mesmo que não tivesse conhecimento, concordando com o poeta português.

Antes de falarmos propriamente do romance, vale uma breve contextualização.

Depois da Segunda Guerra Mundial, da visão catastrófica dos campos de concentração e das bombas atômicas, as questões humanas tomaram contrastes mais trágicos.

De modo geral, não havia mais a certeza em um ser terrestre a quem o homem podia recorrer, nem a certeza da ciência na qual o homem podia agarrar-se. O que restava, então? Camus respondeu: a arte; a literatura; o romance. Não como redentores ou salvadores das mazelas humanas, obviamente. Mas como a única possibilidade de mergulhar nesse estrangeiro de si que é o homem.

Em vários ensaios Camus explorou as contradições e angústias do humano. Entretanto, nos próprios ensaios, ele afirmou que o gênero romanesco seria mais pertinente para tal empresa. “Só se pensa através de imagens. Se você quer ser filósofo, escreva romances”. Não que o ensaio não fosse capaz de sondar as amplitudes do homem; mas a arte seria um “passo adiante” nesse processo.

Em O homem revoltado, utilizando Dostoiévski como exemplo, asseverou o autor franco-argelino: A existência é enganosa ou eterna. Se Dostoiévski se contentasse com essa análise, seria filósofo. Mas ele ilustra as consequências que esses jogos do espírito podem ter na vida de um homem e por isso é um artista.

Assim sendo, Camus lançou-se à arte literária e publicou O estrangeiro, em 1942. Mas sobre o que é este livro?

Em entrevista de 1955, o próprio autor afirmou que não seria errado ler O estrangeiro como a história de um homem que, sem atitudes heroicas, aceita morrer pela verdade. Disse ainda que o protagonista, Meursault, não é um depravado, mas um homem “pobre” e “nu”, apaixonado pelo sol. E nós, pretensamente, completamos a fala do autor: um homem que não é apenas um homem, mas todos os homens estrangeiros de si, da humanidade e do mundo.

É provável que o romance seja tão popular justamente por isto: porque não narre simplesmente a vida de um homem, mas a de todos nós. Uma espécie de autobiografia de todo mundo.

UMA OBRA EM CAMADAS

Toda obra literária pode ser analisada em várias camadas. Três delas: referencial, formal e ontológica. Sob o ponto de vista referencial, ou seja, no âmbito denotativo, o romance tem uma trama relativamente fácil de ser resumida: Meursault é um jovem escriturário que leva uma vida banal, recebe a notícia da morte da mãe de modo indiferente, envolve-se superficialmente com a jovem Marie, comete um assassinato (incitado pelo sol), é preso, julgado e condenado à morte.

Em relação ao aspecto formal, podemos dizer que a linguagem é seca, ou melhor, clara e objetiva: sem abstrações ou rebuscamento, com poucos adjetivos e advérbios. Não há inversões sintáticas ou figuras de linguagem, são raríssimos os ornamentos linguísticos. Em grande medida, a linguagem é um inventário das ações das personagens, descrevendo-as de maneira fria e distante.

O estilo sóbrio do texto camusiano contribui para a absorção do conteúdo por parte do leitor. Contudo, nosso intento maior é fazer uma análise ontológica do romance, ou seja, explorar seu “subsolo”, o que há de mais visceral na obra, que diz respeito à existência absurda do homem. O absurdo é um dos principais conceitos de Camus.

Em O MITO DE SÍSIFO, ele atestou: Um mundo que se pode explicar, mesmo com más razões, é um mundo familiar, mas, pelo contrário, num universo subitamente privado de ilusões, o homem sente-se um estrangeiro […]. Esse divórcio entre o homem e a sua vida é o sentimento de absurdo. A existência é absurda porque não tem significado ou ordem prévia. Nada tem sentido a priori. O absurdo e o incompreensível tornam equivalentes todos os pontos de vista, com acontecimentos em sequência que geram, simultaneamente, êxtase e morte. Entretanto, porque a maioria das pessoas não é capaz de suportar essa noção, constantemente há tentativas de se criar um sentido que oriente a vida.

No romance O estrangeiro, Meursault é a personificação do absurdo. Ele tem uma ideia precisa da falta de sentido da existência apenas no final do enredo, no diálogo com o capelão: ao atingir o conhecimento da inevitabilidade da morte, obtém serenidade. Percebe ainda que recorrer à decisão de seu julgamento é uma esperança ilusória que só criaria o sentimento falso de que a morte é evitável.

Camus usa o destino de Meursault para demonstrar que a situação humana é absurda: somos todos condenados à morte não sendo nem culpados nem inocentes.

O HOMEM ABSURDO

“O homem absurdo é aquele que, sem o negar, nada faz pelo eterno”, sentenciou Camus. Este homem não está ligado nem ao passado histórico e cultural, nem ao futuro. Assim sendo, por um lado, pode cometer qualquer ato impensado e, por outro, deixar de temer as possíveis consequências desses atos. O homem absurdo não vive sob os paradigmas da razão ou da moral.

Como Meursault é a personificação desse homem absurdo, as noções de bem e mal são indiferentes para ele. Sendo impossível apreender a essência das coisas, tudo parece igualmente vazio de significado.

Expressões como “tanto faz”, “não me importo” ou “não sei” são recorrentes no romance. Tal indiferença pode ser observada logo no primeiro parágrafo.

A perda da mãe, aquela que representa a origem, é narrada sem qualquer experiência emocional (como se a história fosse de outro, de um desconhecido). O narrador não se limita a descrever o acontecimento (o que já seria perturbador), mas hesita sobre a precisão da informação.

Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames. Isto não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

Ao longo do romance, de modo gradativo, fica evidente que as ações de Meursault não têm plausibilidade sob o ponto de vista da racionalidade e da moralidade vigentes. Isso pode ser bem ilustrado com o trecho no qual Marie pergunta se Meursault se casaria com ela e se ele a ama:

À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia, mas se ela queria, poderíamos nos casar. Quis, então, saber se eu a amava. Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava.

– Nesse caso, por que quer casar-se comigo? – perguntou ela.

Expliquei que isso não tinha importância alguma e que, se ela o desejava, nós poderíamos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu me contentava em dizer que sim. Observou então que o casamento era coisa séria.

– Não – respondi.

E também, claro, na cena do assassinato. Neste caso, o que enfatiza a noção de absurdo é que não há um sentimento de ÓDIO EM RELAÇÃO AO ÁRABE. É um ato desprovido de conteúdo emocional, um assassinato gratuito, “incitado pelo sol”; um gesto “apassional”, antagônico aos preceitos do romantismo.

Na verdade, quando reencontra o árabe, Meursault sente receio em se aproximar, mas a lesão causada pelo sol o leva a continuar andando em direção à sombra: “Por causa desta queimadura, que já não conseguia suportar, fiz um movimento para frente”. Vendo o rival aproximar-se, o árabe tira uma faca e com a lâmina faz refletir a luz insuportável do sol no rosto de Meursault.

Esta espada incandescente corroía as pestanas e penetrava meus olhos doloridos. Foi, então, que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho, ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou.

Digno de nota também é a recusa do protagonista em relação ao “jogo social”. Não é extravagante afirmar que o heroísmo de Meursault é, na verdade, um contraponto ao ativismo em pauta na época da publicação do romance. Por isso, o livro foi alvo de várias críticas, dentre as quais: “desmoralizante”, “desertor” e “demissional”.

Camus, em seus Carnets, observou que quem fez uso desse tipo de argumento ignorou profundamente o espírito do romance. Afinal, a ideia do absurdo, necessariamente, traduz o nível zero de engajamento. É uma verdade negativa: um início necessário a todo engajamento ativo.

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