Entenda qual a importância de contar histórias

Saber ler ou contar histórias é perceber o mundo além do nosso universo particular. É adentrar no reino mágico onde as palavras fazem sentido e descortinam o que é mais precioso para o ser humano: a vida

Por Mara Magaña | Adaptação web Tayla Carolina


A literatura infantil e o letramento sempre andaram de mãos dadas. Uma aliança que pode ser comprovada, hoje, pelo movimento do mercado editorial, com grandes tiragens de livros destinados ao público infantil, muitos deles visando aos professores e órgãos governamentais que, ao “adotarem” um livro, transformam a venda no varejo em atacado.

A escritora Marisa Lajolo explica essa situação em Do mundo da leitura para a leitura do mundo: “Na tradição
brasileira, literatura infantil e escola mantiveram sempre relação de dependência mútua”. É verdade que a escola, incontáveis vezes, recorreu à literatura infantil por meio do envolvimento provocado pelas narrativas e pelo encantamento dos versos, para difundir valores, conceitos, atitudes, comportamentos.

Uma história antiga: afinal, como afirma o educador Paulo Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Devemos lembrar que, antes mesmo de as crianças começarem a se interessar pelas letras e seu significado, há o contato direto com a contação de histórias, uma importante aliada do desenvolvimento infantil.

Ler o mundo, ou melhor, “ver” o mundo, como ensina Ruth Rocha em O Menino que Aprendeu a Ver, descortina um universo mágico, que passa a ter um real significado para os pequenos.

Entretanto, muitas crianças não se sentem motivadas a ler. Talvez seja um reflexo da leitura utilitária que, por vezes, é massificada nas práticas pedagógicas escolares. “Precisamos incentivar nas crianças e jovens a leitura prazerosa, em contraposição a uma pseudoliteratura que pretende ‘treinar’ o aluno a responder um questionário a respeito
da obra lida”, critica.

 

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“Esse tipo de prática não desperta o gosto pela leitura, mas sim uma espécie de aversão a livros e à literatura”, defende Janaina Lima, autora de O Menino e a Tempestade e O Sorriso de Pamila. Bruno Bettelheim, psicanalista austro-americano, relata que a criança desenvolve, por meio da literatura, o potencial crítico e reflexivo.

Afirma que, a partir do contato com um texto literário de qualidade, a criança é capaz de refletir, indagar, questionar, escutar outras opiniões, articular e reformular seu pensamento. Janaina Lima faz coro a Bettelheim: “Quando as crianças são incentivadas e acolhidas no universo dos livros adequados ao seu momento, à sua faixa etária, libertam seu pensamento e ampliam seu acervo de ambientes imaginativos.

Cada livro lido é um cenário na imaginação. Cada personagem conhecido é um retalho para uma linda colcha imaginativa”, diz. Portanto, é imprescindível que o professor, em sua prática pedagógica, utilize uma literatura infantil que possa contribuir para o desenvolvimento da criança, estimulando o aluno a buscar diferentes caminhos para as resoluções de problemas.

Esse tal de letramento

Até a transição do século XVII para o XVIII, o significado e o papel social da infância não existiam. As crianças eram vistas como adultas em miniatura e, consequentemente, os hábitos de leitura eram os mesmos que os de seus pais e cuidadores, assim também como as tarefas que os menos favorecidos cumpriam, explicando, por um lado, a alta taxa de mortalidade infantil.

Apenas com a ascensão da burguesia e reestruturação familiar, a criança começou a ser reconhecida como indivíduo diferente do adulto, com atribuições diferentes. No século XVIII, a literatura infantil mostrou-se importante no âmbito escolar e na necessidade de uma mudança na mentalidade sociocognitiva que a criança possuía.

A escola foi um dos principais agentes para que a mudança na literatura ocorresse. Por aqui, a educação infantil andou a passos bem lentos. A mudança do conceito de alfabetização ocorreu somente com os ventos da abertura democrática no País, nos anos 1980.

 

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Passou-se a perceber que era preciso ir além do processo de codificação e decodificação. Daí para o conceito de letramento foi um passo. Uma das grandes incentivadoras, por meio da perspectiva construtivista, foi Emília Ferreiro.

Ela e seus colaboradores alteraram profundamente a concepção de alfabetização, que passou a ser vista como a construção da representação da língua escrita pela criança, cujo início ocorre antes de ingressar na escola, desde que esteja exposta a manifestações de leitura e escrita.

No Brasil, só na segunda metade desta década que, no âmbito acadêmico, se encontram as primeiras formulações da palavra letramento para designar algo que ultrapassa o processo de alfabetização. Mais do que ler e escrever, é preciso saber responder às exigências de leitura e escrita que a sociedade nos impõe cotidianamente.

Segundo Magda Soares, autora de Letramento: Um Tema em Três Gêneros, o surgimento do termo representa uma mudança histórica nas práticas sociais, sendo que essas novas demandas de uso da leitura e da escrita exigiram uma palavra para designá-la.

Ela lembra que, etimologicamente, a palavra literacy vem do latim littera (letra), com sufixo cy, que denota qualidade, condição, estado, fato de ser. No caso da língua portuguesa, à palavra letra, que também se origina do latim littera, foi acrescentado o sufixo mento, que significa o resultado de uma ação.

Assim, letramento é, segundo a autora, “o resultado da ação de ensinar ou aprender a ler e escrever: o estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita”.

Contudo, o letramento é considerado um fenômeno multifacetado e, por cobrir uma vasta gama de conhecimentos, habilidades, capacidades,valores, usos e funções sociais, seu conceito envolve sutilezas e complexidades difíceis de ser contempladas em uma única definição.

 

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A doutora em educação Maria do Rosário Longo Mortatti explica o porquê disso: “o termo letramento está diretamente relacionado com a língua escrita e seu lugar, suas funções, seus usos nas sociedades letradas ou, mais especificamente, grafocêntricas, isto é, sociedades organizadas em torno de um sistema de escrita e em que esta, sobretudo por meio do texto escrito e impresso, assume importância central na vida das pessoas e em suas relações com os outros e com o mundo em que vivem”.

É o que encontramos no já citado O Menino Que Aprendeu a Ver, de Ruth Rocha. Para Abrahão Costa de Freitas, escritor e mestre em Educomunicação, leitura e escrita devem caminhar juntas. Segundo ele, a literatura infantil é uma importante ferramenta a partir do momento que ajuda a criar no aluno o hábito de leitura e exercita a imaginação.

É quando acontece a alfabetização concreta, que faz o aluno sentir-se protagonista. “A literatura infantil exerce um importante papel na aprendizagem, pois revela ao leitor infantil a realidade, permitindo-lhe decodificar o mundo por
meio de suas emoções e sentimentos.

A criança desenvolve o senso crítico quando, a partir de uma leitura, ela dialoga, questiona e concorda ou não com a visão do autor. Ela também desenvolve a arte pela fantasia, que alcança espaço ilimitado no seu imaginário, resultando em novos textos, pinturas, desenhos, colagens, etc.

A arte literária é importante por revelar uma visão de mundo e por permitir criar nosso próprio mundo e interagir com ambos”, defende. Freitas chama a atenção para um importante problema: “A maioria das nossas crianças não tem o hábito de leitura em casa.

O professor passa a ser o primeiro modelo, por isso tem de ser bom leitor. Só assim pode transmitir esse conhecimento. E como fazer isso na prática? As salas de leitura são uma ótima opção. Lá o professor passa a ser um mediador da leitura, incentivando as crianças a escolherem o que querem ler e a levar livros para casa”.

O primeiro passo, para ele, é a contação de histórias. “É nesse momento que as crianças começam a perceber a complexidade do mundo, a enxergar outro mundo e a querer fazer parte dele”. Janaina Lima concorda: “É o caminho inicial para a libertação do pensamento criativo. É aqui que a criança começa a desbravar a decodificação da língua escrita, a compreensão dos sentidos próprios e figurados. Consecutivamente, está no caminho de produção da escrita”.

 

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