O que é literatura de cordel?

Por Marco Haurélio* | Adaptação web Tayla Carolina

A história da literatura de cordel ou, mais especificamente, a história da editoração do corpus que viria a ser denominado literatura de cordel, no Brasil, é cheia de percalços.

Sabe-se que, antes da aventura editorial de Leandro Gomes de Barros (1865-1918) – paraibano que migrou para Pernambuco no alvorecer do século XX e valeu-se dos recursos da imprensa para popularizar os textos poéticos escritos por ele ou por amigos próximos –, os romances circulavam em manuscritos ou faziam parte do amplo repertório das poéticas orais do Nordeste.

Sem autoria conhecida, ou mesmo atribuída, essas narrativas épicas, líricas ou picarescas misturavam-se aos velhos romances ibéricos, como Juliana e D. Jorge, O cego, D. Barão, Silvaninha ou D. Carlos de Montealbar, ou aos romances da gesta do gado, com barbatões endemoninhados e vaqueiros intrépidos, cortando os carrascais do sertão mítico e sangrento.

Sem contar os romances trágicos, ligados muitas vezes ao ciclo do cangaço, envolvendo figuras lendárias, como o valente Vilela, ou reais, como Lucas da Feira, Zé do Vale, José Gomes, o Cabeleira, e Jesuíno Brilhante, populares até as primeiras décadas do século XX.

Leandro, o poeta-ponte

A contribuição de Leandro Gomes de Barros, que, além de grande poeta, foi, ao lado de Francisco das Chagas Batista (1882-1930), seu compadre e amigo mais próximo, editor pioneiro, é tão grande, que podemos chamá-lo, sem chances de erro, de poeta-ponte.

Não foi o primeiro autor de cordel do Nordeste, nem o mais prolífico, mas a partir dele o gênero estabeleceu-se em sua amplitude temática e como atividade editorial consistente e tocada com profissionalismo.

João Martins de Athayde (1880-1959), que, de certa forma, o sucedeu, ao adquirir o seu espólio em 1921, consolidou-se como um editor obstinado, ampliando o catálogo de sua tipografia de modo substancial e pondo fim à forma como os cordéis, até então, eram publicados por Leandro: inacabados e, a depender de sua extensão, publicados em dois ou mais folhetos, em companhia de outras histórias.

Athayde pôs fim a esta prática copiada dos folhetins franceses e replicada aqui por alguns escritores, como José de Alencar. As histórias, a depender do seu tamanho, teriam 8, 16, 24, 32 ou 48 páginas. A depender, seriam publicadas em dois volumes, a exemplo da obra-prima A vida e o testamento de Cancão de Fogo, de Leandro.

 

*Marco Haurélio nasceu no sertão baiano e, desde sempre, pesquisa a cultura popular brasileira e o persistente medievo. É poeta cordelista, com dezenas de folhetos e mais de 40 livros publicados, incluindo Breve história da literatura de cordel (Claridade), Contos folclóricos brasileiros (Paulus) e O cavaleiro de Prata (Cultura).

 

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