O Quixote de Mia Couto

Por Eduardo de Araújo Teixeira* | Adaptação web Tayla Carolina

Miguel de Cervantes Saavedra tinha 57 anos quando publicou, em 1605, Dom Quixote de la Mancha, primeiro grande romance da literatura mundial.

Composto de duas partes – a segunda publicada com nove anos de intervalo da primeira –, a obra tem por protagonista o idoso fidalgo Alonso Quijana, que, “enlouquecido pela leitura constante dos romances de cavalaria”, autodenomina-se Dom Quixote e parte em uma anacrônica cruzada, montado no seu cavalo, Rocinante, tendo por companhia seu fiel “escudeiro”, Sancho Pança, a segui-lo em um jumento.

Na sua insana aventura, ele se propõe a restituir a cavalaria, e com ela as glórias do tempo das Cruzadas. Pode-se dizer que o cavaleiro da triste figura é, entre tantas coisas, um desmistificador das organizações sociais, posto que denuncia os olhos viciados pelas aparências do real, incapazes de reconhecer as ilusões que cerceiam a liberdade do homem.

Na sua loucura e “graça”, Dom Quixote posiciona-se como defensor dos que padecem com as injustiças daqueles que detêm o poder; revela os moinhos de ventos que os olhos medrosos insistem em converter em perversos gigantes, exércitos inimigos que nada mais são que ovelhas arrebanhadas; simples bacia de barbeiro que os homens julgam valorosos troféus.

No conto “De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro”, Mia Couto faz nascer em solo africano o mito de Dom Quixote. A triste e risível figura de Ascolino, assim como a de seu Sancho, o atabalhoado Vasco João Joãoquinho, serão menos uma homenagem a Cervantes que um comentário jocoso aos sonhos de grandeza que acabaram naufragados em uma Moçambique ainda colonial.

Munhava é o lugar onde transcorre a narrativa, zona desprestigiada da cidade da Beira, na província de Sofala, hoje uma zona superpovoada e caracterizada pela pobreza e violência. Publicado em Vozes Anoitecidas (1986), antologia de narrativas curtas que inaugura a prosa do premiado escritor moçambicano, a história se passa no início dos anos 1960.

Paródia da paródia

O conto abre com uma briga. O cenário é a casa colonial da quinta Vivenda da Santíssima Palha, propriedade centenária, isolada e discreta. O velho Ascolino desentende-se com a amada e “santa” esposa portuguesa, Epifânia, que repudia seus avanços sexuais.

Explodindo em fúria, ele arremessa altares, santos e a si mesmo da varanda. Em seguida parte com seu criado, Vasco, no horário de costume, para o Bar do Meneses. Nos fundos do bar, entre os companheiros negros e pobres, Vasco zombará do patrão contando seus desentendimentos com a esposa.

No lado reservado aos brancos, Ascolino iniciará uma briga com soldados/clientes e, salvo por Meneses, tentará, bêbado, retornar para casa na garupa de uma bicicleta pedalada por Vasco. Ambos caem e dormem no meio da estrada.

Ao despertar, veem passar o caminhão de mudança da irredutível Epifânia, que decidira deixar o marido; o que levará a uma nova e impossível missão da dupla: alcançar o caminhão a pedaladas.

Se Quixote é uma paródia dos romances de cavalaria, no conto temos a paródia da paródia, a começar pelo imenso título. Ele simula os títulos dos capítulos cervantinos, que sempre antecipam o que será narrado, como o XXVII, de Dom Quixote: “De como saíram com a sua intenção o cura e o barbeiro, com outras coisas dignas de ser contadas nesta grande história”.

O título prepara o leitor para o “evento” grandioso, trágico e insólito: o “vazar da vida” de seu protagonista, o fidalgo de nome pomposo e risível Ascolino (Fernandes) do Perpétuo Socorro. Tal “vazar”, mais que apontar somente para perda, desvanecimento, algo que escorre ou se “liquefaz”, faz reverberar, ganha distintos significados ao longo da narrativa.

 

*Eduardo de Araújo Teixeira é doutor em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP e professor voluntário da ONG Instituto Henfil. Em 2011, concluiu pós-doutorado no PACC/UFRJ em Estudos Culturais (literatura contemporânea), sob supervisão de Heloísa Buarque de Hollanda.

 

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