Os lugares da voz

Por Reynaldo Damazio* | Por Tayla Carolina

Dois livros que de algum modo se complementam e provocam reflexões mais que pertinentes para o momento delicado que vivemos: Os homens explicam tudo para mim, da norte-americana Rebecca Solnit, e Teoria King Kong, da francesa Virginie Despentes.

Ambos reúnem ensaios breves e muito bem amarrados entre si sobre questões urgentes e dramáticas para a revisão do papel da mulher na sociedade e a busca por uma situação real de igualdade.

As conquistas de direitos são muito recentes e mesmo assim as mulheres seguem vítimas de uma cultura violenta de opressão e abuso, que pratica historicamente não só o apagamento da identidade como a agressão física e o estupro, considerados em geral, e sem qualquer sentido, como algo internalizado ao comportamento masculino.

Os livros de Rebecca e Virginie desarmam com inteligência, e às vezes dolorosamente, esses argumentos constrangedores que reforçam os discursos e gestos cotidianos de sujeição.

O conceito de mansplaining (explicação masculina), cunhado logo após a publicação de um artigo de Rebecca no blog TomDispatch, em 2008, viralizou e hoje é utilizado com veemência para explicitar o esmagamento da fala da mulher, ou para entender como “no discurso educado, o poder se expressa”, segundo a autora.

Esse mesmo poder, que, acompanhado pelos atos físicos de violência e de intimidação, “consegue silenciar, apagar e aniquilar as mulheres, como pares, como participantes, como seres humanos com direitos – e, tantas vezes, como seres vivos”.

Rebecca Solnit argumenta que a imposição desse discurso, ou da fala masculina, vem acompanhada por um pacote avassalador de práticas e condutas que colocam a mulher em uma posição sempre vulnerável, seja diante do assédio permanente, da violência física escancarada, que não raro acaba resultando em morte, ou da cultura do estupro.

O próprio ordenamento patriarcal na maioria das culturas do planeta já parte do princípio de anulação genealógica, uma vez que importa apenas o registro ou o destaque da descendência paterna. No caso dos estupros, e ela nos lembra que são mais de 87 mil por ano só nos Estados Unidos, a violência é tratada como um fato isolado, em um labiríntico jogo de evasivas, caso a caso, com justificativas absurdas que muitas vezes culpam a própria vítima, que passa por dupla violência.

 

*Reynaldo Damazio é editor, crítico literário, escritor e gestor cultural. Coordenador do Centro de Apoio ao Escritor do museu Casa das Rosas e autor de “Poesia, linguagem” (Memorial da América Latina), “Nu entre nuvens” (Ciência do Acidente), “Horas perplexas” (Editora 34), “Com os dentes na esquina” (Dobradura Editorial), entre outros.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 76