A poesia de Cecília Meireles

A poética da autora carioca já foi definida como “delicada” e “sensível”, mas carrega a força de um grito. Uma leitura mais aprofundada de seus poemas mostra potência ao abordar amor, morte e temas caros ao feminino

Por Anélia Montechiari Pietrani* | Adaptação web Tayla Carolina

A palavra é delicada com o fino i duplo e o igualmente duplo som sibilante a levar a língua a tocar os dentes, enquanto os lábios abrem-se ao nome Cecília. Mas o motivo da poesia daquela que assina Cecília Meireles não é exatamente a delicadeza.

Uma declaração dessas, pela negação, pode inquietar o leitor que já tenha acostumado os ouvidos e olhos ao motivo e à paleta dos delicados matizes e acordes de sua poesia. Até porque assim fomos apresentados à grande dama da poesia brasileira, nascida no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1901, que atravessou o longo século XX do Modernismo brasileiro com seus versos desinteressados e efêmeros, de flores belas e inúteis, como estes que abrem Viagem, livro premiado pela Academia Brasileira de Letras e publicado em 1939:

Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis uma sonora ou silenciosa canção: flor do espírito, desinteressada e efêmera. Por ela, os homens te conhecerão: por ela, os homens versáteis  saberão que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente, quando por ele andou teu coração.

Disse Manuel Bandeira que Cecília Meireles tinha “não sei que graça aérea”, o que talvez tenha permitido a José Paulo Paes localizá-la “mais perto das nuvens que da cidade dos homens lá embaixo”. Darcy Damasceno reconhece em sua poesia que “os dados da realidade apreendida foram filtrados, sensibilizados e feitos fabulação lírica”.

 

→ Kindred, de Octavia Butler

 

De seus versos, Cunha Leão enumera as palavras de “táctil delicadeza”. Paulo Rónai apreende do “mar invisível” que permanece em seus escritos “o culto da beleza imaterial, a preferência pela abstração, o desapego do ambiente real”. Sobre a presença de Cecília, Drummond escreveu que tinha “a impressão de que ela não estava onde nós a víamos, estava sem estar, para criar uma ilusão fascinante, que nos compensasse de saber incapturável a sua natureza”.

Ana Cristina Cesar reconhece em sua poesia a dicção nobre, o lirismo distinto, a delicada perfeição, em que “tudo aqui é limpo e tênue e etéreo”, sem que jamais inquietasse alguém. A própria Cecília revelou, em entrevista, que sua poesia era marcada por “uma certa ausência de mundo”.

Se ao talhe delicado, elegante e fino de sua forma poética conjugarmos a expressão do afastamento das coisas do mundo, estará delineado o cariz da “pastora de nuvens”, como o próprio eu poético se autodefine em “Destino”.

De fato, a singularidade de sua poesia tem existência em uma dimensão absoluta: a nuvem, o mar, o vento, a água, a rosa são os motivos recorrentes que ela encontra para a reflexão sobre a existência e o ato poético, em que se espelham a fragilidade humana e a permanência da palavra, não menos frágil e delicada: “tem sangue eterno a asa ritmada”, diz Cecília em verso de “Motivo”, um de seus poemas mais famosos.

Sua poesia tem o ritmo da palavra em canção; a fragilidade e liberdade da asa da imaginação. Tem sangue, a energia vital e pulsante da palavra que se eterniza no pouco, no insignificante e no efêmero, como na beleza sutil da rosa, na pequenez de formigas e delicadeza de asas de borboleta, na insignificância da palavra que se pergunta “para quê?” na voz da lagartixa, no ritmo rude, rijo e seco dos cascos de cavalos nas pedras – imagens recuperadas da natureza para a natureza poética de Cecília Meireles.

 

→ Mayombe, de Pepetela

 

Sua palavra é, simultaneamente, sangue e pedra, como os ouvidos atentos de Mário de Andrade souberam escutar nos versos de “Eco”, de Vaga música (1942), sobre a solidão do “pobre animal” no alto do morro que “mira com seus olhos de homem” e súbito, inquietando-se com a fala do poema-eco (“Não é isso! Não é isso!”), levanta, late, ouve, apressa os passos, aguça os sentidos (porque patas, olhos, orelhas, coração são “seus” sensíveis humanos) e busca o eco e sua voz.

Sua palavra é, talvez, o sentido mesmo de poesia: a poesia que – sangue – flui em busca de comunhão e mundo; a poesia que – pedra – fica na solidão do eu. Diferente do que o senso comum pensa sobre a delicadeza de um “certo” feminino na poesia de Cecília, podemos buscar, na modulação de sentido que o pronome indefinido sugere em sua “certa” ausência de mundo, a poesia “certa” de Cecília entre a potência vital do sangue e do corpo e a força etérea e delicada do eterno: a pedra da consciência humana em forma de reflexão e expressão do grito.

Talvez aí encontremos o destino final (não fatal) de toda a poesia de Cecília, ou o motivo de toda a poesia perfeita, se alguma existir, como disse a própria poeta:

Um poema perfeito é o que apresenta forma e expressão, num ajustamento exato. Não sei se as condições atuais do mundo permitem esse equilíbrio, porque serão raros os poetas tão em estado de vivência puramente poética, livres do atordoamento do tempo, que consigam fazer do grito, música – isto é, que criem poesia como se formam os cristais. Mas creio que todos padecem, se são poetas. Porque, afinal, se sente que o grito é o grito; e a poesia já é o grito (com toda sua força) mas transfigurado.

 

* Anélia Montechiari Pietrani é professora associada de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 76