Descubra se vale a pena ser poeta

Por Dafne Sampaio | Adaptação web: Tayla Carolina

Um liquidificador fazendo sucos de laranja. Louças batendo umas nas outras empilhadas na pia e, posteriormente, sendo lavadas. Colherinhas mexendo cafés. Algumas notificações de celular. O plim plim da Sessão da Tarde a exibir, vejam só vocês, ‘O Diário da Princesa’.

Esses foram alguns dos sons que acompanharam as duas horas de conversa com a poeta e tradutora Angélica Freitas em uma padaria perto de sua casa, no bairro paulistano da Água Branca.

Com apenas dois livros publicados – Rilke Shake é de 2007 e o premiado Um útero é do tamanho de um punho é de 2013 e ganhou nova edição pela Cia. das Letras em 2017 –, a gaúcha de Pelotas é uma das mais festejadas autoras da atual safra literária nacional e já prepara seu terceiro livro de poesias.

Tímida, 44 anos e fascinada por mecanismos de busca na internet, Angélica Freitas passou toda a entrevista acompanhada de uma garrafa de água com gás e um café coado médio com um pouquinho de água que ela não tomou até o fim.

 

Você fez e faz muita coisa. É poeta, tradutora, jornalista, dá oficinas… Disso tudo, o que você é agora?

Eu escrevo poesia, mas esse ato de escrever poesia não é uma coisa que me sustente economicamente. Antes estava em Pelotas, morava em um apartamento que é da minha família, então não tinha muitos gastos. Mas aqui em São Paulo desempenho algumas funções: dou oficinas de poesia, laboratórios na verdade, porque gosto da ideia de experimentação, e traduzo também, do inglês e do espanhol.

Agora, por exemplo, estou em um projeto longo de tradução dos diários da Virginia Woolf para a Editora Rocco e vou começar um de quadrinhos para a Editora Todavia. Participo também de debates no Sesc, circuitos de literatura e encontros literários, e isso também é uma fonte de renda para muita gente que escreve. Então, tenho meu trabalho de criação em poesia e esses outros que me dão o ganha-pão. Não vivo de poesia, mas vivo de literatura.

 

Como é dar oficinas de poesia? Você fala sobre como escrever poesia ou como traduzir o mundo em poesia? Qual é a sua abordagem?

Entendo poesia como uma forma de investigação. Também é possível fazer isso em prosa na forma de ensaio, investigando e aprofundando um assunto. Mas acho que a poesia nos dá mais liberdade de experimentar a linguagem do que em um texto em prosa, que é mais pensado para comunicar. Na poesia, você ao mesmo tempo investiga o mundo e investiga a linguagem.

 

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E o que é poesia?

É muito difícil definir poesia. O que a poesia tem? Poesia tem métrica. Mas também é possível escrever um texto em prosa metrificado. Poesia tem rima. Mas também posso escrever um texto em prosa rimado. O Marcelino Freire, por exemplo, faz muito isso. Acaba virando uma coisa meio tautológica: poesia é aquilo que funciona como poesia.

Tem certo mistério nisso. Existem várias definições de poesia que podem ser válidas e que tu pode concordar com elas em um determinado período da tua vida. O [Paulo] Leminski, no primeiro poema do livro La Vien em Close, lista uma série de definições clássicas que vão desde Ezra Pound a Fernando Pessoa e encerra com uma dele próprio, “Poesia é a liberdade da minha linguagem”.

Sempre gostei dessa ideia, mas recentemente me dei conta de que essas definições são muito eurocêntricas e que dentre elas não tem de nenhuma mulher. Então, quando a gente fala de poesia, a gente está falando de qual? Nos laboratórios que faço quero pegar leve. Não quero impor nenhuma ideia de poesia. Muito pelo contrário. Faço as pessoas verem que elas têm que pensar nisso como uma prática de escrita.

É como tocar um instrumento ou desenhar, tem que praticar. Minha função como pessoa que dá laboratórios é incentivar pessoas a escreverem para tentar achar o seu caminho. É bem aberto, bem livre e bem horizontal

 

O que você aprendeu com essas oficinas?

É um frescor renovado, porque tenho que ouvir os poemas e pensar poesia com eles, então é algo que me atualiza constantemente. É uma maneira de pensar o que faço, pensar os meus procedimentos e, de repente, ver algo que fazia e que agora não funciona mais, sabe?

 

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Na escrita mesmo?

É. Ou que quero fazer outras coisas. Tenho uma maneira de escrever que me acompanha faz um tempo. Escrevo de manhã. Sou uma pessoa matutina. Quando acordo minha cabeça funciona melhor, então acordo, passo um café e começo a escrever.

A quantidade de tempo que vou passar nisso, escrevendo, varia. Às vezes paro, pego um livro ou entro na internet, cada dia é uma coisa. O que não muda é que sempre escrevo em cadernos e que quanto mais escrevo poemas, mais eles saem.

Entendo muito como um exercício, porque não publico tudo que escrevo. Na realidade, o que gosto de fazer mesmo é encher cadernos. Tenho uma grande satisfação em começar e terminar cadernos, então compro uns fininhos [risos]. Encho cadernos, guardo em uma pilha e uns meses depois retomo alguns, leio e vejo o que posso mexer, o que está legal, passo a limpo para o computador.

Mas também tenho cadernos que nunca passei nada a limpo. Tem coisas que não lembro que escrevi. Sabe quando tua mão adormece e tu pensa que é mão de outra pessoa? É uma vibe meio assim. Acho essa situação interessante.

 

Você tem dois livros publicados e está preparando um terceiro. Como é o seu processo para fechar um livro de poesia? Tem coisas em comum entre Rilke Shake, Útero e esse terceiro? Ou cada um é uma história diferente?

É aquela história: quando tu não consegue mais olhar para aquele negócio, é que ele está pronto. Mas no Rilke Shake, como foi o primeiro, eu tinha bastante material, então juntei alguns poemas que achei que tinham alguma
afinidade estética entre si. Foi um apanhado.

 

O Rilke Shake foi uma mixtape então?

Isso mesmo, bem pensado. Foi como uma mixtape que tu coloca uma música e depois outra que tem a ver e vai pensando um encadeamento das coisas. Já o útero foi um projeto de escrita mesmo. Eu queria escrever sobre mulheres. Passei um ano e pouco só escrevendo esse livro. Foi todo um processo para chegar aos poemas. Pesquisei muito, usei bastante a internet, e o Google está no livro porque fiz alguns poemas usando pesquisas que fiz nele sobre mulheres. Foi uma investigação sobre os meus limites de expressão com a poesia. Foi diferente.

 

Para ler a entrevista na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 76

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