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Por Ruan de Sousa Gabriel* | Adaptação web Tayla Carolina

No início dos anos 1970, Benjamin Abdala Jr. era um “subversivo” perseguido pela ditadura militar que se dedicava ao estudo da obra de autores que escreveram debaixo de regimes autoritários. Um deles era Graciliano Ramos, o qual fora preso por Getúlio Vargas.

O outro era o português Carlos de Oliveira, que escreveu durante a ditadura salazarista em Portugal. A política e o diálogo entre as literaturas em língua portuguesa sempre guiaram o trabalho crítico de Abdala Jr., professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Não dá mais aulas, mas ainda orienta alunos de pós-graduação.

No ano passado, organizou o livro de ensaios Graciliano Ramos: muros sociais e aberturas simbólicas, no qual pesquisadores aproximam o autor de Vidas secas de outros escritores lusófonos e também da linguagem cinematográfica.

Em 2015, organizou outro livro de ensaios, Um mundo coberto de jovens (Com-Arte), sobre as memórias da antiga Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antônia, palco de resistência ao regime militar onde se formaram alguns dos mais destacados intelectuais brasileiros.

As memórias dos tempos de “subversivo” e a aposta no diálogo entre as literaturas em língua portuguesa atravessaram toda a entrevista que Abdala Jr. concedeu à revista Conhecimento PráticoLiteratura.

No ano passado, o senhor organizou o livro Graciliano Ramos: muros sociais e aberturas artísticas. Graciliano é um autor que o senhor estuda há tempos, desde sua tese de doutorado nos anos 1970. Por que resolveu dedicar-se ao estudo de suas obras?

Naquela época, eu fazia política. Combatia a ditadura militar. E falar de Graciliano Ramos é falar da situação política brasileira. Trabalhar com os autores neorrealistas é, sobretudo, falar do Brasil. Os livros de Graciliano nos permitem uma reflexão que não fica só no nível do enredo, mas eleva-se para outros campos, graças ao modo como ele articula as coisas.

Graciliano apresenta uma reflexão aguda sobre as questões sociais brasileiras, aquilo que, mais tarde, Florestan Fernandes chamou de “capitalismo selvagem”. Por exemplo: em São Bernardo, aparece o Paulo Honório. A maneira como se articula o mundo de Paulo Honório não é só de Paulo Honório, um homem situado em uma propriedade rural nordestina.

É o modo como se articula o capitalismo brasileiro – no campo e na cidade. Ainda que os objetos articulados na cidade sejam outros, a exploração permanece e isso permite a Graciliano criar uma cumplicidade com o leitor, que reconhece, no livro, algo do seu dia a dia na cidade. O leitor vê que Paulo Honório não está só no campo, mas pode ser até seu patrão na fábrica – com atenuantes, é claro.

Mas por que escolheu Graciliano, e não outros autores neorrealistas da década de 1930, como José Lins do Rego ou Rachel de Queiroz?

Eu também trabalhei com Rachel de Queiroz. Uma vez, eu fiz uma análise de O quinze com ela do meu lado, em um evento no Nordeste, sobre literatura feminina. Também escrevi um livro sobre José Lins do Rego para a coleção Literatura Comentada, da Editora Abril. Trabalhei com todo esse pessoal. Só com Jorge Amado que não.

Eu centralizei minha pesquisa em Graciliano porque o considero um autor efetivamente neorrealista. Jorge Amado é neorromântico. Em Capitães da areia, ele pega um indivíduo marginal e o transforma em líder revolucionário. Isso é muito romântico! Graciliano não é assim. Graciliano constrói um mundo habitado por personagens emparedados.

 

*Ruan de Sousa Gabriel é jornalista e estudante de filosofia. Escreve sobre literatura.

 

Para ler essa entrevista na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 77

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