Carta ao Pai, de Franz Kafka

Por Jordi Llovet | Tradução Ellen Maria Vasconcelos | Adaptação web Tayla Carolina

A uns cinquenta quilômetros ao norte de Praga, tomando a rodovia número 9, passando pela cidade de Liběchov, chegamos a um povoado insignificante que nem costuma aparecer nos mapas, chamado Želižy (ou Schelesen, nos tempos do império austro-húngaro).

Já bem perto do povoado, à esquerda da rodovia, inspirado em um afluente humilde do rio Elba, achamos um casarão com muitos telhados e de alturas variáveis, de aspecto maciço, com um jardim um pouco descuidado e rodeado por uma cerca de madeira.

No primeiro andar da ala sul, a casa exibe uma varanda suspensa de madeira, toda decorada na fachada, detrás do qual se encontra um dos quartos mais espaçosos do que foi, nos tempos de Kafka, uma pensão tranquila e pouco frequentada.

Kafka visitou o casarão, por primeira vez, durante o inverno de 1918-1919 – nesta ocasião, conheceu Julie Wohryzek, que foi sua amante – e por segunda vez, em novembro de 1919, aproveitando as férias adicionais concedidas pelo Instituto de Seguros no qual trabalhou até sua prematura aposentadoria, por causa da tuberculose.

Neste quarto, Kafka escreveu sem parar, entre 4 e 20 de novembro do último ano citado, a chamada Carta ao Pai: quarenta e quatro páginas manuscritas (que se conservaram) nas quais o escritor judeu de Praga faz um resumo, com um estilo que ele mesmo denominou “de advogado”, da relação que manteve com seu pai desde o nascimento.

A carta é um dos documentos autobiográficos de Kafka mais valiosos – talvez o mais valioso – para entender o complicado emaranhado de sentidos que constitui sua obra e, especialmente, para entender os arcanos da vida afetiva do escritor, sua peculiar visão de mundo e as razões pelas quais dedicou sua vida à escrita.

Como o próprio autor confessou a seu amigo e testamenteiro MAX BROD a propósito de O Castelo, não parece que a carta fora redatada para ser lida, mas sim simplesmente com a intenção de “ser escrita”: não chegou nunca às mãos de seu progenitor – dizem alguns que a mãe de Kafka a interceptou –, sem dúvida para a sorte do filho, e só tiveram notícia de sua existência, com Kafka ainda vivo, sua irmã Ottla e talvez sua já mencionada amante, Julie Wohryzek, e a mulher que ocupou em 1920 o lugar desta, Milena Jesenská, correspondente de Kafka e, mais tarde, tradutora de sua obra ao tcheco.

 

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Acusações e remissão de culpa

Analisada em seu conjunto, a Carta ao Pai se compõe de duas seções. Na primeira, que ocupa praticamente a totalidade da carta, Kafka vai subindo o tom de suas acusações à pessoa, à influência, às censuras de seu pai. A segunda seção ocupa apenas as duas últimas páginas da carta, e nela, Kafka, em um golpe de gênio narrativo pouco
verossímil na linguagem epistolar, concede a voz ao seu próprio pai para livrá-lo ele mesmo de toda a culpa.

A culpa, como é habitual na obra de Kafka, recai sobre o filho, e o texto inteiro se vinga e se transforma em uma estratégia destinada a deliberar o que Kafka já sabia de antemão: a culpa cai sempre sobre si, sem que sobre responsabilidade para culpar a ninguém mais, ainda presumindo a totalidade de uma vida e de todos os seus reveses.

Mas esta questão, tão fundamental para este texto, não esgota o conteúdo da Carta ao Pai. Outras duas questões, pelo menos, constituem a matéria estrutural que tece o conteúdo destas páginas: em primeiro lugar, as representações que fizeram que Kafka se tornasse um escritor – um assunto só em parte relacionado à “questão do pai” – e, em segundo lugar, a espinhosa questão da aproximação ou do distanciamento de Kafka a respeito do que costumamos chamar “a questão judia”.

Dessa forma, portanto, e mais ou menos entrelaçada – dado que a impossível “pátria” dos judeus centro-europeus tem também, no caso de Kafka, perfil biográfico –, esta carta repassa três dos mais importantes aspectos da vida de Kafka: filiação (e, com ele, família e matrimônio), literatura e judaísmo.

A soma das circunstâncias também foi o que deixou no jovem Franz essa sensação de não pertencer, integralmente, a nenhum território delimitado e não possuir nenhum terreno sólido sob os pés, como ele mesmo comentou a seus amigos em repetidas ocasiões, e como se encarregou de deixar também por escrito: as atitudes ambíguas de seu pai, que roçam o oportunismo mais fundamental, fazem parte, sem lugar a dúvidas, da máxima “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” que Franz Kafka sempre recriminou.

Como diria seu amigo Max Brod em carta de 7 de agosto de 1922, quando este lhe sugeriu que integrasse o comitê de redação da revista Der Jude (“O judeu”): “Lamentavelmente não é mais que uma piada ou uma ocorrência peregrina pensar que eu poderia ocupar a vaga de Der Jude.

Como é que eu poderia pensar em algo assim tendo consciência de meu absoluto desconhecimento sobre as coisas, de minha falta de contato com as pessoas, de minha absoluta carência de base judia?”.

A “extraterritorialidade” de Franz Kafka – em feliz expressão de dois ensaístas franceses, GILLES DELEUZE E FÉLIX GUATTARI, que dedicaram um imprescindível ensaio a este aspecto da obra e da pessoa de Kafka – parece, pois, arraigada a uma educação paterna na qual não se perseguia muito nem a “apropriação” de marcas de identidade para uma família judia na Praga dos finais do século XIX nem uma diluída e arrivista assimilação aos poderes fáticos da cidade.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 76

 

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