Conheça “O Terceiro Olho”, livro de Marina Colasanti

Por Bruno Molinero  | Adaptação web Renê Saba

Pode parecer um papo neo-hippie ou xamanismo de papelaria, mas alguns escritores têm de fato uma espécie de terceiro olho no centro da testa. E, no Brasil, poucos o utilizam tão bem quanto Marina Colasanti. Como o assunto aqui é literatura, explico com um conto da própria autora.

“O que não está à vista” narra a história de um menino com o tal terceiro olho, de íris escura sempre mais atenta, mais interessada, mais desperta que as outras duas. E o aparente poder de fazê-lo ver coisas que todos os demais ignoravam.

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Não por acaso o personagem logo passa a desenhar. E, retratando a solidão dos pastos e a aridez da vida, chama a atenção não apenas dos pais, do marceneiro, do lenhador, do ferreiro ou do boticário – mas também a curiosidade do rei, que deseja posar para o menino de talento inigualável.

Para não entregar o desenrolar, não digo o que aconteceu quando o monarca sentou-se em frente à tela e encarou as tintas vindas da China e os pincéis feitos de pelo de marta. Revelo apenas que, ao fim do trabalho, o rei destruiu o seu retrato e ordenou que costurassem para sempre as pálpebras extras do garoto – cujo olho, agora voltado para dentro, passa a ver o que parecia não existir. E, prestando atenção ao seu interior, faz do rapaz um contador de histórias.

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Carregado de poesia, o conto sobre a arte de criar narrativas fecha o livro Quando a primavera chegar, lançado no ano passado pela editora Global. Nele, Marina faz escorrer pelas mãos dos leitores 17 textos que não apenas flertam com a estrutura e os temas dos contos clássicos – ou contos de fadas, como são mais conhecidos. Eles, de fato, fazem parte desse universo, o que pode gerar surpresa em quem acha que essas histórias morreram com os irmãos Grimm ou com Hans Christian Andersen.

Pois dentro da extensa e rica obra da escritora há várias dessas narrativas. Nascida na Etiópia, no centro de uma família italiana, Marina mudou-se para cá ainda criança e comemorou os seus 80 anos, em 2017, como uma das mais premiadas autoras para crianças, jovens e adultos do País. Como em todos bons contos de fadas, os seus costumam ter geografia incerta, criando fundações no inconsciente coletivo e nos fantasmas, segredos e desejos de cada leitor.

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Isso porque esse tipo de história tem origem praticamente irrastreável, em uma Europa pré-literária, onde poucos sabiam ler e passavam as aventuras de criação coletiva, sem autor definido, de boca em boca por gerações. Só muito depois que parte delas foram recolhidas em livros por autores como Grimm, Andersen e Perrault, que nada tinham de infantis.

De certa forma, Marina resgata essa atmosfera em seus contos, sobretudo em Quando a primavera chegar – título que é categorizado como infantojuvenil, mas que coloca muito marmanjo na roda para pensar. Não apenas pela linguagem, que não abre concessões nem nivela o vocabulário por baixo, evitando o tatibitate comum às obras que subestimam a inteligência de crianças e adolescentes. Mas também pelos temas que o atravessam: a busca pelo verdadeiro amor, o encontro com a morte, a dor da separação, a passagem para a vida adulta e outras questões que regem a natureza humana desde que caminhamos pela Terra.

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