Kindred, de Octavia Butler

Por Carolina Caires Coelho* | Adaptação web Tayla Carolina

Quero falar de um livro que ultrapassa as barreiras do gênero literário no qual está classificado, que traz elementos para agradar a muitos tipos de leitor, que começa de um jeito assustador e interessante, escrito por uma autora que conhece bem muito do que escreve, por ter de alguma forma vivido ou testemunhado os fatos que descreve. Um livro repleto de elementos de representatividade, claro, mas, acima de tudo, com muita alma.

VAMOS FALAR SOBRE O KINDRED, DE OCTAVIA BUTLER?

Octavia Estelle Butler (1947–2006) foi uma escritora que ficou conhecida por escrever livros que a alçaram ao posto de “grande dama da ficção científica” – título que via com estranheza, já que, como ela dizia, uma “grande dama” passava a impressão de uma mulher que já era avó, o que ela não foi, apesar de admitir que tinha idade para isso.

Foi vencedora de prêmios importantes da literatura de ficção científica, como o Nebula e o Hugo. Um ano antes de sua morte, foi admitida no Hall Internacional da Fama de Escritores Negros. Sim, Octavia era afro-americana. E passou por dificuldades para poder se dedicar ao que gostava de fazer, escrever.

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Criada por mulheres, principalmente pela mãe e pela avó materna, pois seu pai morrera quando tinha sete anos, começou a notar o preconceito ao acompanhar a mãe trabalhando como empregada doméstica. Ela via a mãe sendo tratada de modo diferente, tendo que entrar pela porta dos fundos da casa dos patrões, e dizia que não queria ser tratada daquela forma.

Aos doze anos, assistiu a um filme de ficção científica que considerou péssimo e achou que seria capaz de escrever coisas muito melhores. Na época, teve que enfrentar os obstáculos que seus próprios parentes colocavam em seu caminho, como uma tia que dizia que mulheres negras não podiam ser escritoras.

Como se isso não bastasse, ainda precisou driblar a dislexia e o bullying na escola, já que sempre foi “diferente”: alta, desajeitada e reservada. Por interagir pouco com os colegas, passava muito tempo na biblioteca, lendo e escrevendo.

Mais tarde, na faculdade, foi inspirada a escrever Kindred ao ouvir um colega dizer que os negros do passado eram muito submissos aos brancos. Ele, branco, não entendia. Ela queria que as pessoas compreendessem que os negros não eram covardes e que lutavam como podiam, considerando que uma pessoa não tem muitos recursos para lutar quando a sociedade toda é contra ela.

 

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Queria que as pessoas sentissem o medo e a dor vividos pelos negros enquanto seguiam lutando. Octavia era muito disciplinada e persistente. Dizia que uma pessoa não deve se deixar guiar pela inspiração para alcançar um objetivo, mas sim pelo hábito, que é o que faz as coisas acontecerem.

Segundo ela, o hábito é a prática de persistir. Após sua morte, foram encontradas muitas de suas anotações, nas quais ela se motivava a seguir em frente e detalhava exatamente o que desejava alcançar. Como acontece com muitos escritores, Octavia ouviu muitos nãos.

E disse outros também, como quando sugeriram que ela escrevesse Kindred como um romance histórico. Ela decidiu escrever a história com elementos de ficção científica, um gênero até então dominado por homens brancos.

Kindred foi escrito depois de alguns de seus livros, como Patternmaster, Mind of my Mind e Survivor, mas foi a obra que lhe rendeu um adiantamento de cinco mil dólares, permitindo que ela, pela primeira vez, se sustentasse apenas escrevendo.

 

*Carolina Caires Coelho é tradutora literária de inglês e espanhol e também revisora. É formada em Tradução e Interpretação e desde 2013 traduz livros de ficção e não ficção de gêneros diversos. Com outros três colegas, mantém o blog Ponte de Letras (pontedeletras.com), publicando textos sobre a tradução no mercado editorial.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Literatura – Ed. 76

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