O que estamos fazendo com o nosso tempo?

Crônica de Ellen Maria Vasconcelos* | Foto Shutterstock 

Ao contrário da notícia de jornal, que tem data, local, hora, temperatura e estação do ano definidos, além de uma determinada (ou nem tão determinada assim) atmosfera política e outros fenômenos climáticos validados por alguns profissionais do ramo, há quem diga que a literatura é atemporal, já que busca arquitetar um salto quântico e engendrar um lapso no espaço-tempo para permitir a identificação do leitor contemporâneo com a figura do clássico herói grego, do medieval cavaleiro, do prisioneiro de guerra na Sibéria, do jagunço sertanejo etc.

Você já viu, por um acaso, algum personagem literário, protagonista ou secundário, monologar sobre a urgência da vacina da febre amarela, defender a falta de opiniões nos elevadores ou analisar o excesso delas nos pequenos botecos gourmets dos grandes centros urbanos? Não, claro que não, leitor. Isso é coisa de cronista (ok, não só de cronista), mas principalmente desses seres, nem glorificados nem humilhados, que se interessam em discorrer tanto sobre os sentimentos e angústias das criaturas mundanas quanto sobre os trending topics, comentários e memes das redes sociais.

Crônica é um espaço no papel em que a literatura ganha tempo e, sincronicamente, já se despede dele. No dia seguinte, vai embrulhar sapatos, transformar-se em cama de cachorro ou forrar gaiola de passarinho. Talvez possa parecer uma bobagem falar da efemeridade da crônica no jornal ou revista em tempos nos quais quase todo mundo lê exclusivamente pela tela do celular ou do computador. Afinal, se jogamos um nome em qualquer ferramenta de busca, tudo o que já saiu sobre ele, ainda que em épocas longevas ou lugares remotos, parece cantar e sapatear debaixo de nossos indicadores, com somente um clique de distância. Uma vez na nuvem, uma informação parece ficar para sempre armazenada em cinquenta tons de pixels.

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No entanto, se já nos assombrávamos com a duração de um periódico quando ele era diário, por que haveríamos de duvidar de sua transitoriedade quando, na internet, um algoritmo virtual nos dificulta de visualizar duas vezes a mesma mensagem para nos revelar, a cada F5 automático, algo “inédito” aos nossos corações e mentes, ou quando uma notícia é reeditada quatro ou cinco vezes por hora, a cada traço de mudança do acontecimento?

Como o narrador Brás Cubas, que revela de antemão ao seu leitor a passagem do tempo, a crônica, da mais atual à mais antiga, sempre antecipou seu próprio fim, mesmo que mirasse a posteridade. Sua duração é apenas a do correr dos olhos. E ao menos para aqueles que a escrevem, ter essa atenção do leitor contemporâneo, da primeira à última linha, já é um presente raro. A lista de pendências aumenta e “cabisbaixeamos” mais uma vez para verificar o celular. Sim, somos todos procrastinadores, ladrões do próprio relógio.

E se profanamos de Chronos sem nem ao menos corar a face, somos também todos, muitos sem saber, adoradores da Crônica. Uma crônica não tem a obrigação de conservar-se em um altar, nem de só tratar de prosa leve ou desimportante, como postulava Olavo Bilac e José de Alencar. Tampouco impõe uma escrita necessariamente com ares de casa ou ao rés do chão, como afirmava Antonio Cândido.

Sem precisar proporcionar detalhes muito subjetivos como em um diário pessoal, nem tão objetivos quanto em uma seção policial, nem sobejamente líricos como em um poema, a crônica tem a liberdade tanto de mergulhar em águas profundas quanto de apenas molhar os dedos dos pés na borda da piscina. Uma crônica só tem a obrigação de ser um respiro, um instante, uma pausa entre falsas manchetes e notas, entre editais e imagens editadas. Assim, simplesmente, sem mal-entendidos, ser só uma crônica. Será que é possível?

*Ellen Maria Vasconcelos é escritora, autora dos livros Gravidade (2018) e Chacharitas & gambuzinos (2015), ambos publicados pela Editora Patuá.

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