Poesia e Transgressão

Geração Beat, Surrealismo e publicação de poesia no Brasil nos anos 1960. Nesta entrevista, o poeta Claudio Willer fala sobre o início ao lado dos amigos poetas, as dificuldades do caminho e o que vem por aí.

Por Luís Perdiz | Adaptação web Rachel de Brito

Claudio Willer é uma figura fundamental na poesia brasileira contemporânea. Além de poeta, é ensaísta e teórico, autor do recente livro A verdadeira história do século 20 pela editora Córrego. Agitou o universo cultural de São Paulo na década de 1960 ao lado de Roberto Piva, Carlos Felipe Moisés e outros autores importantes da cena cultural paulistana.

Como tradutor, trouxe para o português obras como Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, Escritos, de Antonin Artaud, e Uivo, Kaddish e outros poemas, de Allen Ginsberg. Atualmente ministra palestras, oficinas e atividades culturais, além de preparar o lançamento de um livro de crônicas e um estudo inédito sobre poesia e xamanismo.

Graduou-se em Ciências Sociais pela Fun­dação Escola de Sociologia e Política de São Paulo em 1963, aos 23 anos, e em Psico­lo­gia pela USP em 1966. Sua tese Um Obscuro En­canto: Gnose, Gnosticismo e a Poesia Mo­der­na foi aprovada em 2008 na FFLCH-USP. Sua poesia está ligada ao surrealismo e à geração beat. É um dos únicos poetas brasileiros a receber a menção da revista Le Bréche, em 1965, dirigida à época por André Breton. Colaborou para jornais como Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense, entre outros. Nesta entrevista, aos 77 anos, fala à Conhecimento Prático: Literatura sobre sua trajetória, o desafio de quem vive de literatura no Brasil e os próximos projetos.

Poeta, ensaísta e teórico brasileiro abre o jogo sobre a realidade de viver de literatura no Brasil e as produções que vem por aí.
Bate papo com Cláudio Willer, poeta, ensaísta e teórico.

 

Como a literatura passou a fazer parte da sua vida? Havia na sua família um hábito de leitura? Quais foram suas primeiras referências e paixões na poesia?
Sim. Hábito de leitura desde a infância. Meus pais tinham biblioteca em casa. Poesia, pelo ambiente cultural de 1960, por aí — poetas novíssimos, turma de amigos, principalmente Piva, leitor frenético. Maravilhamento com Jorge de Lima, cultuávamos Saint-John Perse, Federico García Lorca do Poeta em Nova York, impactante. Surrealismos.

Os beats e o surrealismo são influências marcantes em suas principais áreas de atuação – poeta, ensaísta e tradutor. Como foi seu primeiro contato com essas vertentes da arte?
Trato disso em meu livro Geração Beat, no capítulo final, “Beat Brasil”. Interessava como tema, como expressão da rebelião, da recusa da sociedade burguesa. Kerouac — On the Road e The Dharma Bums — li em 1960, 1961. Meados de 1961, Piva apareceu com aquela pilha de livros de poesia beat, edições da City Lights, principalmente: Ginsberg, Corso, Snyder, McClure, Lamantia, coletâneas como The Beat Scene etc.

Nos anos 1960, ao lado de Roberto Piva, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli, você vivenciou uma efervescente atividade cultural. Como se formou o grupo?
Piva, conheci na virada de 1959 para 1960, fomos apresentados em uma festa. Organizamos um ciclo de palestras sobre poesia. Apresentou­-me amigos: Paulo del Greco, Mariano Carneiro da Cunha, Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro. Decio Bar e Carlos Felipe Moisés, colegas, juntaram-se. Roberto Bicelli, conheci mais tarde, no começo de 1965. Mencionaria dois polos — além do meu apartamento, é claro. Um, a editora do Massao Ohno. Outro, a casa de Vicente e Dora Ferreira da Silva.

Você poderia falar um pouco mais sobre as atitudes polêmicas e provocativas do grupo?
Daria um livro. Houve alguns manifestos — inclusive aqueles que Piva escreveu e estão nas Obras reunidas dele e o meu de 1964 — mais sessões de insultos a intelectuais estabelecidos ou que para nós representavam a ordem estabelecida. Dos representantes da Geração de 45 até os concretistas e outros formalistas, passando pelos nacional-populistas.

O editor Massao Ohno foi uma figura central para a produção poética fora dos padrões estabelecidos. Vocês tiveram uma duradoura parceria que germinou seus três primeiros livros de poesia — Anotações para um apocalipse (1964), Dias circulares (1976) e Jardins da Provocação (1981). Como vocês se conheceram? De que modo sua poesia e a arte editorial de Massao se juntaram?
Acho que se juntaram efetivamente com Jardins da Provocação, de 1981, um livro muito bonito. Anotações para um apocalipse, de 1964, lançado junto com Piazzas, de Piva, foi um livro modesto, Massao não tinha mais dinheiro. Mas tinha iniciativa. “Willer, quero te publicar…!” — já mencionei em artigos e depoimentos anteriores. Sem essa disposição dele, não sei como nem quando teria sido.

Em 1964 ocorreu o lançamento do seu livro de estreia, Anotações para um apocalipse, ao lado do segundo de Piva, Piazzas, ambos pela editora de Massao Ohno. Poderia nos falar um pouco sobre como foi o evento de lançamento?
O lançamento foi lindo. Surpreendeu. Veio mais gente do que esperávamos. Na Galeria Metrópole, Bar Barroquinho. Comprei um barril de cem litros de vinho, contratei uma banda musical. Que pena não termos essa tecnologia de hoje, de poder registrar tudo através de celulares! Mas eu tinha câmera, máquina fotográfica, Pentax, fotografava bastante, podia ter levado. Ou pedir para algum amigo registrar. Que coisa, não estava nem aí, não me passava pela cabeça que algo assim poderia ter interesse documental.

No final dos anos 1970, você teve uma experiência como editor, a editora Feira de Poesia. De que modo iniciou-se essa investida literária e como foi essa experiência?

No embalo do evento, a Feira de Poesia e Arte de 1976, no Teatro Municipal, resolvi publicar Bicelli, Antes que eu me esqueça

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Conhecimento Prático: Literatura – Edição 78

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