Responsabilidade ética e estética

Por Clarice Assalim* | Adaptação web Tayla Carolina

De tempos em tempos, a discussão sobre adaptação de obras clássicas ocupa as páginas dos jornais e revistas. Das polêmicas mais recentes, destaca-se a provocada pela publicação das obras O Alienista, de Machado de Assis, e A Pata da Gazela, de José de Alencar, adaptadas pela escritora Patrícia E. Secco – que recebeu duras críticas por substituir palavras e expressões consideradas, pela escritora, “estranhas” ou “difíceis” ao jovem público leitor –, e a atual polêmica provocada pela adaptação da ópera Carmen, de Georges Bizet, apresentada em Florença.

Nesta nova versão, a protagonista, em vez de morrer a facadas, atira em seu amante, adequando a obra à campanha italiana de combate à violência contra a mulher.

As opiniões sobre o assunto são conflitantes: os que se dizem a favor das adaptações têm como principal argumento a ampliação do público conhecedor de determinada obra, sendo a adaptação uma espécie de instrumento de acesso ao clássico; os que são contra reclamam da morte ou, no mínimo, do empobrecimento da versão original.

Proponho-me neste artigo a promover uma reflexão sobre a adaptação dos clássicos da literatura e, principalmente, sobre a necessidade do estabelecimento de critérios para que isso ocorra. Não cabe aqui a discussão do que seja um “clássico”: fico com a noção do senso comum, ou seja, clássica é aquela obra considerada referência em relação a uma época ou escola literária, como Os Lusíadas, de Camões.

Tampouco há espaço para uma discussão sobre a adaptação para o público infanto-juvenil ou para a massa: considero que a primeira integra a segunda e, portanto, tratarei da adaptação feita para um conjunto de consumidores para o qual diferenças como origem, condição socioeconômica, gosto ou idade não são significativas.

A origem de “adaptar”

A raiz sânscrita ap (prender, ligar) deu origem a uma série de palavras presentes da nossa língua, via latim (apere): apto (próprio, ajustado), inepto (não apto), adepto (aquele cujas ideias se ligam ou se acomodam às de outrem), cópula (cum + apere, ligado a outrem), adaptar (ad + apere, ajustado para). Etimologicamente, portanto, adaptar uma obra literária significa ajustá-la para determinado público leitor.

Vê-se que a noção de adaptação relaciona-se à acomodação de algo já existente a uma nova realidade. De fato, cabe ao adaptador criar um novo texto, cuja existência deve-se a outro já acabado, mas que, por algumas razões, tornou-se funcionalmente ineficiente a determinado público.

 

*Clarice Assalim é doutora em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, professora titular do Centro Universitário Fundação Santo André e da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, autora do livro “Afinal, estamos de acordo! O (novo) acordo ortográfico” (Porto de Ideias, 2009).

 

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